LUA ADVERSA | Cecília Meireles
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Façamos sim, consideração à
relação do sujeito com este ‘objeto’. Olhar e reparar bem quando dissemos em
outra ocasião que o processo do luto será proporcional ao apego estabelecido no
vínculo. É, pois, muito subjetivo mensurar tais disposições e como elas se
organizam no mundo dos afetos de cada um. Um filho pode sofrer muito pela morte
do pai, outro nem tanto e nem por isso rotula-se de insensibilidade. Nesta
tábua de relatividades, o luto pode ainda não se constituir de prantos e silenciosamente
ser o fator preponderante de um adoecimento. Cada história detalhada na clínica
da psicoterapia do luto e das perdas coloca seu narrador diante de sua questão,
daquilo que é sua essência de realidade e de como vai sua relação com o mundo,
da perda em diante.
Falando nisso, em Luto e Melancolia, Freud faz distinções
e diz que no processo do luto, "o mundo que se torna pobre e vazio; na
melancolia, é o próprio ego”. É a melancolia de hoje, conhecidíssima por nome
menos poético de depressão, o estágio mais complicado desta batalha
existencial.
Diferentemente do enlutado que
consegue elaborar sua perda em seu devido tempo cronológico, o sujeito que se entrelaça
na depressão, dificilmente enxergará sozinho o final do processo, pois já não dá
créditos à realidade e não reconhece a viabilidade de teu término.
Hoje, e ainda inicialmente, quero
fazer menção aqui no Impermanentes a
um dos pontos mais relevantes quer seja em rodas técnicas de conversa entre
profissionais e estudantes do assunto, quer seja na hora prática onde o
instante supremo lhe faz perceber a minúcia da tanatologia. Para tanto, recorro
a Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004), uma médica psiquiatra que dedicou sua vida
a direcionar o olhar do saber médico e terapêutico a um campo “novo”, da
humanização profissional e da educação para a morte diante do temor contemporâneo
que se fez em torno desta certeza que é a finitude.
Em suas falas e publicações,
Kübler-Ross demarca em níveis o processo do luto. Em cada etapa ou fase
possível de ocorrer a cada um que se defronte com a realidade de uma perda, ela
e outros tantos pesquisadores e disseminadores de suas ideias, avaliam os
momentos diversos em que o sujeito se relaciona com a morte, seu antes, o durante
e no depois para os que ficam.
Os estágios são cinco e são complementam
da seguinte maneira:
Negação e isolamento,
Raiva,
Barganha ou negociação,
Depressão
Aceitação.
É importantíssimo lembrar que
esta pode não ser a sequencia observável no campo prático. Alguns dos pacientes
não se debruçam nestes cinco momentos, outros podem migrar de forma aleatória
de um estágio para outro e infelizmente alguns permanecem fixados,
cristalizados em um único ponto. A
imprevisibilidade é ingrediente desta “receita terapêutica” uma vez que
consideramos a subjetividade psíquica de cada um em sua relação com a perda. A
intensidade, a durabilidade, a especificidade da experiência entre outros
aspectos é que formalizarão o histórico.
PODEMOS SUBLIMAR A DOR?
Em psicanálise, no capítulo dos mecanismos
de defesa e nos caminhos que o Ego pode encontrar para se proteger do
contato e do contraste da realidade, a Sublimação é tida e é dita como o mais
belo dos dispositivos elaborados pela psique humana. É assim, por exemplo, que um
artista direciona toda a sua irrefreável pulsão sexual para algo aceito
socialmente, o mesmo pode ocorrer com a "fúria" do cirurgião, do professor ou do religioso que
reconfigura seu desejo e sua prática para algo louvável.
Mas em si tratando do processo do
luto, como a sublimação deve ser referenciada e compreendida?
Vejo frequentemente muitos casos (de
perto e de longe) em que as pessoas que passaram pela vivência da perda e do
processo do luto, se lançaram em algo muitas vezes ligado direta e indiretamente
a sua dor. Eis o exemplo de mães que perderam filhos e que posteriormente se
engajaram em trabalhos sociais e de apoio a outras mães que igualmente perderam
filhos vítimas da violência, das drogas... também muito comum, ouvir
depoimentos assumindo a eternidade da dor, do luto, da perda, quase um mortificante
desejo de ficar sofrendo. O que pensar?
Quero deixar esta reflexão em
aberto, mas pensemos bem em quais casos, subjetivos que são, o sujeito realmente
sublimou a dor da perda e se é aconselhável sublimar a dor em algo e em que
contextos nos pareça uma contemplação masoquista pela maneira como elas se dão.
Penso favoravelmente que a dor é
para ser sentida, vivenciada em seus rituais não importando o crivo alheio que
se pretenda imperar. Essa dor não deve ser negligenciada, e em hipótese alguma, sofrer retaliações ou ser
mascarada, mesmo com intenções humanitárias. Como se pode conceber que alguém que
não tenha conseguido ressignificar seu luto possa ajudar a outrem? Uma espécie
de análise pessoal que nós psicanalistas devemos sempre ter em dias junto a outro
analista supervisor.
Quando bem elaborado, o processo
de luto pode sim se converter em solidariedade, porque não? É preciso observar
os sintomas, capturar esses instantes, saber interpretá-los e quando “normalmente
prevalece o respeito pela realidade”, no dizer de Sigmund Freud, afinal perder é
uma essencialidade para que se tenha além desse respeito pela realidade da
nossa existência, um entendimento da nossa impermanência e finitude.
Paz e Bem!
Para saber mais sobre tudo isto e mais um pouco, recomendo a leitura de um clássico de Elisabeth Kübler-Ross, a saber:
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer
Editora: Matins Fontes, Edição: 9ªAno de Lançamento: 2008
Número de páginas: 304
preço aproximado de R$ 54,00
Luto e Melancolia - Coleção para Ler Freud
Editora: Civilização Brasileira preço aproximado de R$ 19,00

