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ESTE ESPAÇO ACOLHE PESSOAS E TEXTOS QUE FALAM SOBRE OS TEMAS DE TANATOLOGIA,
PSICOTERAPIA DO LUTO, PERDAS REAIS OU SIMBÓLICAS E CUIDADOS PALIATIVOS.


domingo, 17 de junho de 2012

O PROCESSO DO LUTO E SUAS FASES (parte I)


LUA ADVERSA | Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Perdas existirão. Nem façamos muita distinção entre perder um ente familiar, amigo, animal de estimação. Ou ainda exemplificando, se o que se perde é o emprego, um relacionamento amoroso que chega ao fim ou até mesmo aquele objeto que foi roubado, quebrado... perdido para sempre e de que tanto nós gostávamos.

Façamos sim, consideração à relação do sujeito com este ‘objeto’. Olhar e reparar bem quando dissemos em outra ocasião que o processo do luto será proporcional ao apego estabelecido no vínculo. É, pois, muito subjetivo mensurar tais disposições e como elas se organizam no mundo dos afetos de cada um. Um filho pode sofrer muito pela morte do pai, outro nem tanto e nem por isso rotula-se de insensibilidade. Nesta tábua de relatividades, o luto pode ainda não se constituir de prantos e silenciosamente ser o fator preponderante de um adoecimento. Cada história detalhada na clínica da psicoterapia do luto e das perdas coloca seu narrador diante de sua questão, daquilo que é sua essência de realidade e de como vai sua relação com o mundo, da perda em diante.

Falando nisso, em Luto e Melancolia, Freud faz distinções e diz que no processo do luto, "o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”. É a melancolia de hoje, conhecidíssima por nome menos poético de depressão, o estágio mais complicado desta batalha existencial.

Diferentemente do enlutado que consegue elaborar sua perda em seu devido tempo cronológico, o sujeito que se entrelaça na depressão, dificilmente enxergará sozinho o final do processo, pois já não dá créditos à realidade e não reconhece a viabilidade de teu término.

Hoje, e ainda inicialmente, quero fazer menção aqui no Impermanentes a um dos pontos mais relevantes quer seja em rodas técnicas de conversa entre profissionais e estudantes do assunto, quer seja na hora prática onde o instante supremo lhe faz perceber a minúcia da tanatologia. Para tanto, recorro a Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004), uma médica psiquiatra que dedicou sua vida a direcionar o olhar do saber médico e terapêutico a um campo “novo”, da humanização profissional e da educação para a morte diante do temor contemporâneo que se fez em torno desta certeza que é a finitude.

Em suas falas e publicações, Kübler-Ross demarca em níveis o processo do luto. Em cada etapa ou fase possível de ocorrer a cada um que se defronte com a realidade de uma perda, ela e outros tantos pesquisadores e disseminadores de suas ideias, avaliam os momentos diversos em que o sujeito se relaciona com a morte, seu antes, o durante e no depois para os que ficam.

Os estágios são cinco e são complementam da seguinte maneira:

Negação e isolamento,
Raiva,
Barganha ou negociação,
Depressão
Aceitação.

É importantíssimo lembrar que esta pode não ser a sequencia observável no campo prático. Alguns dos pacientes não se debruçam nestes cinco momentos, outros podem migrar de forma aleatória de um estágio para outro e infelizmente alguns permanecem fixados, cristalizados em um único ponto.  A imprevisibilidade é ingrediente desta “receita terapêutica” uma vez que consideramos a subjetividade psíquica de cada um em sua relação com a perda. A intensidade, a durabilidade, a especificidade da experiência entre outros aspectos é que formalizarão o histórico.

PODEMOS SUBLIMAR A DOR?

Em psicanálise, no capítulo dos mecanismos de defesa e nos caminhos que o Ego pode encontrar para se proteger do contato e do contraste da realidade, a Sublimação é tida e é dita como o mais belo dos dispositivos elaborados pela psique humana. É assim, por exemplo, que um artista direciona toda a sua irrefreável pulsão sexual para algo aceito socialmente, o mesmo pode ocorrer com a "fúria" do cirurgião, do professor ou do religioso que reconfigura seu desejo e sua prática para algo louvável.

Mas em si tratando do processo do luto, como a sublimação deve ser referenciada e compreendida?

Vejo frequentemente muitos casos (de perto e de longe) em que as pessoas que passaram pela vivência da perda e do processo do luto, se lançaram em algo muitas vezes ligado direta e indiretamente a sua dor. Eis o exemplo de mães que perderam filhos e que posteriormente se engajaram em trabalhos sociais e de apoio a outras mães que igualmente perderam filhos vítimas da violência, das drogas... também muito comum, ouvir depoimentos assumindo a eternidade da dor, do luto, da perda, quase um mortificante desejo de ficar sofrendo. O que pensar?

Quero deixar esta reflexão em aberto, mas pensemos bem em quais casos, subjetivos que são, o sujeito realmente sublimou a dor da perda e se é aconselhável sublimar a dor em algo e em que contextos nos pareça uma contemplação masoquista pela maneira como elas se dão.

Penso favoravelmente que a dor é para ser sentida, vivenciada em seus rituais não importando o crivo alheio que se pretenda imperar. Essa dor não deve ser negligenciada, e em hipótese alguma, sofrer retaliações ou ser mascarada, mesmo com intenções humanitárias. Como se pode conceber que alguém que não tenha conseguido ressignificar seu luto possa ajudar a outrem? Uma espécie de análise pessoal que nós psicanalistas devemos sempre ter em dias junto a outro analista supervisor.

Quando bem elaborado, o processo de luto pode sim se converter em solidariedade, porque não? É preciso observar os sintomas, capturar esses instantes, saber interpretá-los e quando “normalmente prevalece o respeito pela realidade”, no dizer de Sigmund Freud, afinal perder é uma essencialidade para que se tenha além desse respeito pela realidade da nossa existência, um entendimento da nossa impermanência e finitude.
Paz e Bem!


Para saber mais sobre tudo isto e mais um pouco, recomendo a leitura de um clássico de Elisabeth Kübler-Ross, a saber:

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer

Editora: Matins Fontes, Edição: 9ª
Ano de Lançamento: 2008
Número de páginas: 304
preço aproximado de R$ 54,00

Dica Freudiana:
Luto e Melancolia - Coleção para Ler Freud
Editora: Civilização Brasileira
preço aproximado de R$ 19,00

A morte não é nada | Santo Agostinho




A morte não é nada.
Apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou:
continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria for a de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe,
Somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem.
Redescobrirás o meu coração,
e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e se me amas, não chores mais.
 
Santo Agostinho