Por Djailson Malheiro, psicanalista clínico
Será que morremos ao
nascer ou começamos a contagem regressiva para esse encontro com a morte?
Possivelmente o ser
humano passar por vários processos de morte e consequentemente de enlutamento
ao longo de sua vida.
Quando uma criança
passa para a segunda infância percebe que algo morre para uma nova existência.
Se nessa fase chega um novo irmãozinho (a) temos mais um luto presente porque
ela deixa de ser o (a) queridinho (a) do papai e da mamãe. Há, nesse caso, um conflito
entre o novo que chega e o que se perde.
Com a chegada da
adolescência esse indivíduo passa por outro momento de luto, o ser criança
morre. Este fase é considerada uma das mais conflituosa e complexa do ser,
principalmente ocidental. Ele não é mais criança e ainda não é adulto. O medo
paira e o processo de enlutamento e constatado.
O adulto, agora, assume
grandes responsabilidades. Tudo fica mais sério, mais racional, menos emocional
e ele sofre com a morte da adolescência. Ainda temos mais um estágio de luto
que é a morte do ser adulto quando chega à velhice.
Muitos são considerados
e pior se consideram inválidos diante do outro e de si mesmo. Perceber que
morte não está apenas no outro, mas começa no próprio sujeito é uma tarefa
dura e difícil de aceitar.
Está o ser humano
preparado para esse confronto entre vida e morte? É possível perceber o enlutamento que segue
durante toda a vida? A morte é cruel e impede “olhá-la nos olhos” como parceira
da vida.
O luto é doloroso e
cabe ao homem encontrar alternativas de enfrentá-lo e perceber que não está no
outro e que a sua existência está presente dentro de cada um agindo de diversas
formas.
Quando o processo de
morrer e de enlutar-se está no outro é que se percebe que o ser é mortal não
somente psiquicamente, mas, também, fisicamente. Agregada a essa morte física
está a impossibilidade de reencontros, de comemorações natalinas, maternais,
paternais ou de um simples contato diário, outrora ignorado pela rotina do
estar próximo.
Se não estamos
preparados para lidar com a nossa própria morte e com o nosso processo de
enlutamento, como será possível lidar com a partida do outro? Será que a morte
do outro nos possibilita perceber que somos falíveis, finitos e incompetentes
por não saber viver? Ou por não perpetuar a existência terrena?
Muitos casos de luto
não se resolvem sozinhos. As pessoas necessitam de acompanhamento profissional
ou ajuda para enfrentar algo que é próprio da vida. Mas, que de difícil
aceitação, de entendimento e superação. Sendo essa última o ponto mais
importante do enlutar-se.
É comum diante da morte
as famosas frases feitas, tais como: “o tempo ajuda...”; “você consegue...”; “é
difícil mas...”. Porém é crescente p número de pessoas que tem dificuldade de
esperar o tempo passar e principalmente conseguir superar sozinhas.
O luto deve ter um
começo, quando percebe-se seu acontecimento antecipado pela morte; um meio que
pode está inserido nas fases do luto e seu fim com a aceitação e erguimento
diante de si em busca de continuar a sua vida e consequentemente a sua rotina
diante da sociedade. Nesse processo se considera os estágios do luto posto por
Kübler-Ross, em sobre a morte e o morrer: negação, raiva, negociação, depressão
e aceitação.
O risco é quando muitos
não conseguem passar os estágios do luto, não necessariamente na ordem posta, e
precisam de ajuda profissional. O profissional ou conselheiro que cuida do
processo de enlutamento deve perceber em que estágio o indivíduo se encontra. A
partir dessa percepção ele pode traçar estratégias relevantes contribuindo com
a passagem das fases do luto e com a retirada de um possível quadro patológico.
Será que todos sofrem
igualmente diante da morte e do luto? A dor pode se assemelhar, porém a formar
que ela se manifesta difere de pessoa para pessoa. Deve-se levar em conta o
tempo, a proximidade das pessoas (o que partiu e o que ficou), suas vivências e
a maneira em que cada um lida com a separação. O “formato da dor” e o nível de
sofrimento pode se torna proporcional a aceitação e o mais delicado da não
aceitação da partida do outro.
O risco é
tornar o luto patológico, fugindo do seu processo natural em seu
começo, meio e fim. Viver é perceber que a
vida deve ser experienciada a cada instante de maneira agradável, feliz,
produtiva e sempre em harmonia com o outro e com consigo mesmo.





