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ESTE ESPAÇO ACOLHE PESSOAS E TEXTOS QUE FALAM SOBRE OS TEMAS DE TANATOLOGIA,
PSICOTERAPIA DO LUTO, PERDAS REAIS OU SIMBÓLICAS E CUIDADOS PALIATIVOS.


sábado, 15 de junho de 2013

A essência do luto


Por Djailson Malheiro, psicanalista clínico

Será que morremos ao nascer ou começamos a contagem regressiva para esse encontro com a morte?
 
Possivelmente o ser humano passar por vários processos de morte e consequentemente de enlutamento ao longo de sua vida.

Quando uma criança passa para a segunda infância percebe que algo morre para uma nova existência. Se nessa fase chega um novo irmãozinho (a) temos mais um luto presente porque ela deixa de ser o (a) queridinho (a) do papai e da mamãe. Há, nesse caso, um conflito entre o novo que chega e o que se perde.

Com a chegada da adolescência esse indivíduo passa por outro momento de luto, o ser criança morre. Este fase é considerada uma das mais conflituosa e complexa do ser, principalmente ocidental. Ele não é mais criança e ainda não é adulto. O medo paira e o processo de enlutamento e constatado.

O adulto, agora, assume grandes responsabilidades. Tudo fica mais sério, mais racional, menos emocional e ele sofre com a morte da adolescência. Ainda temos mais um estágio de luto que é a morte do ser adulto quando chega à velhice.

Muitos são considerados e pior se consideram inválidos diante do outro e de si mesmo. Perceber que morte não está apenas no outro, mas começa no próprio sujeito é uma tarefa dura e difícil de aceitar.

Está o ser humano preparado para esse confronto entre vida e morte?  É possível perceber o enlutamento que segue durante toda a vida? A morte é cruel e impede “olhá-la nos olhos” como parceira da vida.

O luto é doloroso e cabe ao homem encontrar alternativas de enfrentá-lo e perceber que não está no outro e que a sua existência está presente dentro de cada um agindo de diversas formas.

Quando o processo de morrer e de enlutar-se está no outro é que se percebe que o ser é mortal não somente psiquicamente, mas, também, fisicamente. Agregada a essa morte física está a impossibilidade de reencontros, de comemorações natalinas, maternais, paternais ou de um simples contato diário, outrora ignorado pela rotina do estar próximo. 

Se não estamos preparados para lidar com a nossa própria morte e com o nosso processo de enlutamento, como será possível lidar com a partida do outro? Será que a morte do outro nos possibilita perceber que somos falíveis, finitos e incompetentes por não saber viver? Ou por não perpetuar a existência terrena?

Muitos casos de luto não se resolvem sozinhos. As pessoas necessitam de acompanhamento profissional ou ajuda para enfrentar algo que é próprio da vida. Mas, que de difícil aceitação, de entendimento e superação. Sendo essa última o ponto mais importante do enlutar-se.

É comum diante da morte as famosas frases feitas, tais como: “o tempo ajuda...”; “você consegue...”; “é difícil mas...”. Porém é crescente p número de pessoas que tem dificuldade de esperar o tempo passar e principalmente conseguir superar sozinhas. 

O luto deve ter um começo, quando percebe-se seu acontecimento antecipado pela morte; um meio que pode está inserido nas fases do luto e seu fim com a aceitação e erguimento diante de si em busca de continuar a sua vida e consequentemente a sua rotina diante da sociedade. Nesse processo se considera os estágios do luto posto por Kübler-Ross, em sobre a morte e o morrer: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

O risco é quando muitos não conseguem passar os estágios do luto, não necessariamente na ordem posta, e precisam de ajuda profissional. O profissional ou conselheiro que cuida do processo de enlutamento deve perceber em que estágio o indivíduo se encontra. A partir dessa percepção ele pode traçar estratégias relevantes contribuindo com a passagem das fases do luto e com a retirada de um possível quadro patológico.

Será que todos sofrem igualmente diante da morte e do luto? A dor pode se assemelhar, porém a formar que ela se manifesta difere de pessoa para pessoa. Deve-se levar em conta o tempo, a proximidade das pessoas (o que partiu e o que ficou), suas vivências e a maneira em que cada um lida com a separação. O “formato da dor” e o nível de sofrimento pode se torna proporcional a aceitação e o mais delicado da não aceitação da partida do outro. 

O risco é tornar o luto patológico, fugindo do seu processo natural em seu começo, meio e fim. Viver é perceber que a vida deve ser experienciada a cada instante de maneira agradável, feliz, produtiva e sempre em harmonia com o outro e com consigo mesmo.

                                                                                                                                                  

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sobre a transitoriedade

"Sobre a transitoriedade", Vergänglichkeit no original, é o nome do curto e belíssimo texto que Sigmund Freud escreveu em novembro de 1915 atendendo inicialmente ao convite da Sociedade Goethe de Berlim. No ensaio, o pai da psicanálise versa sobre a teoria do luto destacada em "Luto e melancolia" e nos premia com sua poética inspiração analítica acerca do tempo, do nosso tempo. 

Assim, tomo a liberdade de compartilhar entre os leitores do blogue pois considero uma leitura indispensável em nosso trânsito existencial, terapêutico ou não, justamente por não ser apenas gosto bibliográfico da minha formação (psic)analítica. É muito maior porque justamente porque transita. Boa leitura.




















Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.

A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado.

Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.

Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.

Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhes estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.

O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades.

Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor — que denominamos de libido — que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.

Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.

Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso de muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim, de e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu.

O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.


FREUD, Sigmund.
Volume XIV: A história do movimento psicanalítico.
Artigos sobre a etapsicologia e outros trabalhos.

domingo, 17 de junho de 2012

O PROCESSO DO LUTO E SUAS FASES (parte I)


LUA ADVERSA | Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Perdas existirão. Nem façamos muita distinção entre perder um ente familiar, amigo, animal de estimação. Ou ainda exemplificando, se o que se perde é o emprego, um relacionamento amoroso que chega ao fim ou até mesmo aquele objeto que foi roubado, quebrado... perdido para sempre e de que tanto nós gostávamos.

Façamos sim, consideração à relação do sujeito com este ‘objeto’. Olhar e reparar bem quando dissemos em outra ocasião que o processo do luto será proporcional ao apego estabelecido no vínculo. É, pois, muito subjetivo mensurar tais disposições e como elas se organizam no mundo dos afetos de cada um. Um filho pode sofrer muito pela morte do pai, outro nem tanto e nem por isso rotula-se de insensibilidade. Nesta tábua de relatividades, o luto pode ainda não se constituir de prantos e silenciosamente ser o fator preponderante de um adoecimento. Cada história detalhada na clínica da psicoterapia do luto e das perdas coloca seu narrador diante de sua questão, daquilo que é sua essência de realidade e de como vai sua relação com o mundo, da perda em diante.

Falando nisso, em Luto e Melancolia, Freud faz distinções e diz que no processo do luto, "o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”. É a melancolia de hoje, conhecidíssima por nome menos poético de depressão, o estágio mais complicado desta batalha existencial.

Diferentemente do enlutado que consegue elaborar sua perda em seu devido tempo cronológico, o sujeito que se entrelaça na depressão, dificilmente enxergará sozinho o final do processo, pois já não dá créditos à realidade e não reconhece a viabilidade de teu término.

Hoje, e ainda inicialmente, quero fazer menção aqui no Impermanentes a um dos pontos mais relevantes quer seja em rodas técnicas de conversa entre profissionais e estudantes do assunto, quer seja na hora prática onde o instante supremo lhe faz perceber a minúcia da tanatologia. Para tanto, recorro a Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004), uma médica psiquiatra que dedicou sua vida a direcionar o olhar do saber médico e terapêutico a um campo “novo”, da humanização profissional e da educação para a morte diante do temor contemporâneo que se fez em torno desta certeza que é a finitude.

Em suas falas e publicações, Kübler-Ross demarca em níveis o processo do luto. Em cada etapa ou fase possível de ocorrer a cada um que se defronte com a realidade de uma perda, ela e outros tantos pesquisadores e disseminadores de suas ideias, avaliam os momentos diversos em que o sujeito se relaciona com a morte, seu antes, o durante e no depois para os que ficam.

Os estágios são cinco e são complementam da seguinte maneira:

Negação e isolamento,
Raiva,
Barganha ou negociação,
Depressão
Aceitação.

É importantíssimo lembrar que esta pode não ser a sequencia observável no campo prático. Alguns dos pacientes não se debruçam nestes cinco momentos, outros podem migrar de forma aleatória de um estágio para outro e infelizmente alguns permanecem fixados, cristalizados em um único ponto.  A imprevisibilidade é ingrediente desta “receita terapêutica” uma vez que consideramos a subjetividade psíquica de cada um em sua relação com a perda. A intensidade, a durabilidade, a especificidade da experiência entre outros aspectos é que formalizarão o histórico.

PODEMOS SUBLIMAR A DOR?

Em psicanálise, no capítulo dos mecanismos de defesa e nos caminhos que o Ego pode encontrar para se proteger do contato e do contraste da realidade, a Sublimação é tida e é dita como o mais belo dos dispositivos elaborados pela psique humana. É assim, por exemplo, que um artista direciona toda a sua irrefreável pulsão sexual para algo aceito socialmente, o mesmo pode ocorrer com a "fúria" do cirurgião, do professor ou do religioso que reconfigura seu desejo e sua prática para algo louvável.

Mas em si tratando do processo do luto, como a sublimação deve ser referenciada e compreendida?

Vejo frequentemente muitos casos (de perto e de longe) em que as pessoas que passaram pela vivência da perda e do processo do luto, se lançaram em algo muitas vezes ligado direta e indiretamente a sua dor. Eis o exemplo de mães que perderam filhos e que posteriormente se engajaram em trabalhos sociais e de apoio a outras mães que igualmente perderam filhos vítimas da violência, das drogas... também muito comum, ouvir depoimentos assumindo a eternidade da dor, do luto, da perda, quase um mortificante desejo de ficar sofrendo. O que pensar?

Quero deixar esta reflexão em aberto, mas pensemos bem em quais casos, subjetivos que são, o sujeito realmente sublimou a dor da perda e se é aconselhável sublimar a dor em algo e em que contextos nos pareça uma contemplação masoquista pela maneira como elas se dão.

Penso favoravelmente que a dor é para ser sentida, vivenciada em seus rituais não importando o crivo alheio que se pretenda imperar. Essa dor não deve ser negligenciada, e em hipótese alguma, sofrer retaliações ou ser mascarada, mesmo com intenções humanitárias. Como se pode conceber que alguém que não tenha conseguido ressignificar seu luto possa ajudar a outrem? Uma espécie de análise pessoal que nós psicanalistas devemos sempre ter em dias junto a outro analista supervisor.

Quando bem elaborado, o processo de luto pode sim se converter em solidariedade, porque não? É preciso observar os sintomas, capturar esses instantes, saber interpretá-los e quando “normalmente prevalece o respeito pela realidade”, no dizer de Sigmund Freud, afinal perder é uma essencialidade para que se tenha além desse respeito pela realidade da nossa existência, um entendimento da nossa impermanência e finitude.
Paz e Bem!


Para saber mais sobre tudo isto e mais um pouco, recomendo a leitura de um clássico de Elisabeth Kübler-Ross, a saber:

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer

Editora: Matins Fontes, Edição: 9ª
Ano de Lançamento: 2008
Número de páginas: 304
preço aproximado de R$ 54,00

Dica Freudiana:
Luto e Melancolia - Coleção para Ler Freud
Editora: Civilização Brasileira
preço aproximado de R$ 19,00

A morte não é nada | Santo Agostinho




A morte não é nada.
Apenas passei ao outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou:
continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria for a de teus pensamentos,
apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe,
Somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem.
Redescobrirás o meu coração,
e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e se me amas, não chores mais.
 
Santo Agostinho

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O que é Tanatologia?



Inaugurando o blog, trouxemos uma palavra ainda muito desconhecida do grande público - TANATOLOGIA. Você sabe o que é?


Etimologicamente, thanatos (que significa morte), mais logia (estudo), definiria algo específico em torno de o estudo da morte. Mas ora, a morte por si só contempla leituras plurais em várias áreas do conhecimento humano e é, pois, em grande quantidade de  assunto que percorre os espaços e que esbarra em grande maioria desses, numa recusa milenar, resistência, superstição, medo ou fuga do tema. As pessoas em geral não querem abordar os assuntos relacionados à única certeza humana que é a morte. O que ocorre? Há explicações para este fenômeno? Algumas delas serão exaustivamente debatidas aqui ao longo das postagens.


A Tanatologia tem hoje, uma ainda tímida concentração de leitores embora o cenário já lhe seja mais confortável apesar dos pesares. Além das formações específicas no assunto, há outros acréscimos incorporados por profissionais de diversas áreas, como: médicos, enfermeiros, psicólogos, psicanalistas, terapeutas outros, cuidadores, professores, historiadores, advogados, agentes funerários e até mesmo artistas ou  membros de religiões afins ao conhecimento da morte. Ousamos dizer que nunca houve no Brasil um entrosamento tão misto em torno de uma área de estudo. Certamente poderá o inconsciente coletivo nos levar a um entendimento desta única certeza, condição final da espécie.
Há ainda um aspecto extremamente relevante a ser mencionado. O trato cultural que se dispensa ao tema da morte. Nós ocidentais e brasileiros em especial possuímos um direcionamento para a morte e seus subtemas que difere bastante daquilo que se pode averiguar em membros de culturas alheias. Citamos de passagem o caso dos povos orientais que, em geral, tem um modo de encarar a morte cuja perspectiva difere amplamente da nossa. As diferenças culturais nos sistemas humanos endossam a igual capacidade de respeitar a diversidade, o interesse pela pesquisa e a universalização desse conhecimento adquirido sem tabus e restrições na Era da globalização, em que cada vez e mais depressa trocamos hábitos fazendo releituras contemporâneas.


Ciclos que terminam. Não consideramos somente os aspectos relevantes à morte de alguém, de um parente, amigo ou conhecido. O tanatólogo (profissional da tanatologia) fala inclusive dessas complexas referências à finitude e de todos os tipos de perdas. Perdas tais, que geram processos de luto. Sim, o luto é um processo igualmente natural, insitintivo e bem-vindo ao nosso psiquismo. Ele é responsável pela defesa da nossa mente e consequentemente proteje nosso nosso corpo do adoecimento, evitando-se este sofrimento decorrente da experiência, que para muitos, pode ser traumática.

Dos vários tipos de luto é preciso conferir que cada caso transmite sua particularidade. Da mesma forma como será o acompanhamento psicoterapêutico quando este se fizer necessário e presente. O luto do tipo complicado vem ressalvar, da pior maneira possível, a grandeza do apego à pessoa ou ao objeto perdido. Em parte, este caminho segue exatamente uma regra simbólica de proporção: Quanto maior for o apego, maior e mais tortuoso poderá ser o processo do luto vivenciado pelo sujeito. A título de ilustração grosseira, podemos dizer que há lutos de um mês e há lutos de uma vida inteira.

Devemos ser desapegados?  Não exatamente. O que se deve ponderar, principalmente durante uma questão de cunho psicoterapeutico, é a dimensão dessa perda em sua representação. Muitas vezes, em uma leitura psicanalítica deste ou de outro caso parecido (mas nunca igual) notamos a intercessão de conteúdos fantasmáticos inconscientes provenientes de uma neurose a ser trabalhada durante o processo. Esta questão do rompimento físico do vínculo afetivo não melhora em solução de desapego, em fingir-se bem ou mesmo negar a perda, pelo contrário, é imprescindível viver o luto, aflorar o choro, afrouxar-se as palavras, elaborar seus rituais ou qualquer outra maneira tida 'saudável' dentro do processo do luto para que ele não se cristalize.

A tanatologia não pode ser sintetizada em uma matéria de gosto duvidoso, ciência penosa, inoperante ou de mau presságio. Ela se serve do conteúdo multidisciplinar em seu redor para amplamente trabalhar perspectivas em prol do entendimento da nossa condição de impermanência física e, ao mesmo tempo, qualificarmos a nossa existência, porque pensar na morte, é pensar na vida que a gente tem.