Inaugurando o blog, trouxemos uma palavra ainda muito desconhecida do grande público - TANATOLOGIA. Você sabe o que é?
Etimologicamente, thanatos (que significa morte), mais logia (estudo), definiria algo específico em torno de o estudo da morte. Mas ora, a morte por si só contempla leituras plurais em várias áreas do conhecimento humano e é, pois, em grande quantidade de assunto que percorre os espaços e que esbarra em grande maioria desses, numa recusa milenar, resistência, superstição, medo ou fuga do tema. As pessoas em geral não querem abordar os assuntos relacionados à única certeza humana que é a morte. O que ocorre? Há explicações para este fenômeno? Algumas delas serão exaustivamente debatidas aqui ao longo das postagens.
A Tanatologia tem hoje, uma ainda tímida concentração de leitores embora o cenário já lhe seja mais confortável apesar dos pesares. Além das formações específicas no assunto, há outros acréscimos incorporados por profissionais de diversas áreas, como: médicos, enfermeiros, psicólogos, psicanalistas, terapeutas outros, cuidadores, professores, historiadores, advogados, agentes funerários e até mesmo artistas ou membros de religiões afins ao conhecimento da morte. Ousamos dizer que nunca houve no Brasil um entrosamento tão misto em torno de uma área de estudo. Certamente poderá o inconsciente coletivo nos levar a um entendimento desta única certeza, condição final da espécie.
Há ainda um aspecto extremamente relevante a ser mencionado. O trato cultural que se dispensa ao tema da morte. Nós ocidentais e brasileiros em especial possuímos um direcionamento para a morte e seus subtemas que difere bastante daquilo que se pode averiguar em membros de culturas alheias. Citamos de passagem o caso dos povos orientais que, em geral, tem um modo de encarar a morte cuja perspectiva difere amplamente da nossa. As diferenças culturais nos sistemas humanos endossam a igual capacidade de respeitar a diversidade, o interesse pela pesquisa e a universalização desse conhecimento adquirido sem tabus e restrições na Era da globalização, em que cada vez e mais depressa trocamos hábitos fazendo releituras contemporâneas.
Ciclos que terminam. Não consideramos somente os aspectos relevantes à morte de alguém, de um parente, amigo ou conhecido. O tanatólogo (profissional da tanatologia) fala inclusive dessas complexas referências à finitude e de todos os tipos de perdas. Perdas tais, que geram processos de luto. Sim, o luto é um processo igualmente natural, insitintivo e bem-vindo ao nosso psiquismo. Ele é responsável pela defesa da nossa mente e consequentemente proteje nosso nosso corpo do adoecimento, evitando-se este sofrimento decorrente da experiência, que para muitos, pode ser traumática.
Dos vários tipos de luto é preciso conferir que cada caso transmite sua particularidade. Da mesma forma como será o acompanhamento psicoterapêutico quando este se fizer necessário e presente. O luto do tipo complicado vem ressalvar, da pior maneira possível, a grandeza do apego à pessoa ou ao objeto perdido. Em parte, este caminho segue exatamente uma regra simbólica de proporção: Quanto maior for o apego, maior e mais tortuoso poderá ser o processo do luto vivenciado pelo sujeito. A título de ilustração grosseira, podemos dizer que há lutos de um mês e há lutos de uma vida inteira.
Devemos ser desapegados? Não exatamente. O que se deve ponderar, principalmente durante uma questão de cunho psicoterapeutico, é a dimensão dessa perda em sua representação. Muitas vezes, em uma leitura psicanalítica deste ou de outro caso parecido (mas nunca igual) notamos a intercessão de conteúdos fantasmáticos inconscientes provenientes de uma neurose a ser trabalhada durante o processo. Esta questão do rompimento físico do vínculo afetivo não melhora em solução de desapego, em fingir-se bem ou mesmo negar a perda, pelo contrário, é imprescindível viver o luto, aflorar o choro, afrouxar-se as palavras, elaborar seus rituais ou qualquer outra maneira tida 'saudável' dentro do processo do luto para que ele não se cristalize.
A tanatologia não pode ser sintetizada em uma matéria de gosto duvidoso, ciência penosa, inoperante ou de mau presságio. Ela se serve do conteúdo multidisciplinar em seu redor para amplamente trabalhar perspectivas em prol do entendimento da nossa condição de impermanência física e, ao mesmo tempo, qualificarmos a nossa existência, porque pensar na morte, é pensar na vida que a gente tem.

